quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Em busca de um lugar no mundo

Marco Aurélio Nogueira - Setembro 2011
 
 
Uma tendência se afirma no mundo atual. O Brasil tornou-se
protagonista importante do sistema internacional. A imagem do País
deixou de ser a do café, do futebol-espetáculo, do samba e da bossa
nova, do território imenso e das riquezas naturais. Há, é verdade, a
corrupção que se mantém, os bolsões de miséria que ainda persistem, as
falhas grotescas de infraestrutura, mas também se sabe que a sociedade
civil demonstra algum poder de reação e que soluções vêm sendo
tentadas de forma sistemática pelos governos. O País é visto hoje mais
por seus acertos que pelos erros.
 
Naquilo que se poderia chamar de opinião pública internacional, o
Brasil é tratado como uma economia industrial expressiva, dotada de um
mercado interno invejável, uma sociedade que se esforça para reduzir a
desigualdade e retirar milhões de pessoas da pobreza extrema e que
está conseguindo avançar nessa direção sem retroceder em termos
políticos, ao contrário, exibindo um sistema democrático que se
consolida.
 
Foi esse um dos pontos de sustentação do belo discurso com que a
presidente Dilma Rousseff abriu a 66.ª Assembleia Geral da ONU, na
quarta-feira.
 
O fato mais importante a explicar a nova posição relativa do Brasil
está associado às modificações que afetam a estrutura internacional. O
mundo mudou, vive outra fase, e clama por novas ideias e atitudes no
terreno das relações internacionais. Um novo tipo de cooperação,
reforma das instituições financeiras, ajustes no Conselho de Segurança
da ONU, coragem e ousadia — é o que se espera das lideranças mundiais.
O desafio posto pela crise, que é econômica, de governança e de
coordenação, disse a presidente, “é substituir teorias defasadas, de
um mundo velho, por novas formulações para um mundo novo”.
 
As grandes potências não podem mais controlar o sistema nem funcionar
como garantidores de um padrão de ordem internacional. Já não há a
unipolaridade que pareceu instituir-se no mundo pós-Queda do Muro, em
1989. Mas a “multipolaridade” (União Europeia, Japão, Brics) é só um
esboço, dados os diversos problemas específicos que cada um desses
polos apresenta. Ainda que os EUA continuem a ser poderosos, não
apenas estão enfraquecidos como também afirmam seu poderio num mundo
povoado por outras potências importantes, países emergentes, redes
sociais, fluxos vários e inúmeros atores não governamentais, num
contexto econômico em que os mercados ficaram mais fortes do que a
regulação política empreendida pelos Estados.
 
O mundo tornou-se “pós-americano”, tal como sugerido pelo cientista
político Fareed Zakaria: um sistema internacional híbrido, mais
democrático, mais dinâmico, mais aberto e conectado, no qual os EUA
declinam economicamente e perdem força relativa. Um mundo com “muitas
potências e uma superpotência”, segundo os chineses. No qual todos
agem e pesam: o centro e o “resto”, as grandes, as médias e as
pequenas potências, as regiões, os Estados e os atores não estatais,
os lugares e as pessoas. Todos, de certo modo, ganharam poder. A
hierarquia, a centralização e o controle passaram a ser minados ou
subvertidos exclusivamente em decorrência da lógica das coisas. Todos
se tornaram dependentes uns dos outros.
 
A crise econômica, a falta de lideranças mundiais e as indefinições
quanto ao futuro das grandes potências fizeram os países emergentes
ganhar projeção política e econômica. Vários deles estão a aproveitar
a situação para melhorar sua distribuição de renda, aperfeiçoar sua
gestão econômico-financeira e crescer comercialmente.
 
O Brasil, com isso, tornou-se uma espécie de enigma, cujos movimentos
são mais difíceis de prever e mais desenvoltos. Seus passos têm maior
audácia, seja no âmbito comercial, seja em termos de tomada de
posições e alinhamentos internacionais. Praticando um pragmatismo
temperado, complexo e necessário, e pelo qual paga algum preço, surge
com força em áreas que antes lhe estavam vedadas.
 
Um dos mais expressivos indicadores da envergadura adquirida pelo País
é sua participação ativa naquele misto de associação e pacto que se
tem convencionado chamar de Brics, o bloco mais ou menos informal
integrado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Não se
trata de uma união circunstancial, mas de uma operação que revela o
progressivo deslocamento de poder na cena internacional.
 
A presença brasileira entre os Brics está impulsionada pelos
resultados obtidos nas duas últimas décadas, que tornaram o País mais
maduro em termos econômicos e fiscal-financeiros, em condições,
portanto, de projetar um ciclo mais virtuoso de desenvolvimento. A
melhoria que se observa na distribuição de renda e a estabilidade
monetária indicam o legado positivo da política econômica e das
políticas sociais que vêm sendo empregadas quase sem rupturas desde a
metade dos anos de 1990.
 
O Brasil poderá ganhar força e relevância no mundo de diferentes
maneiras. Uma delas passa pela construção de barreiras que neutralizem
os efeitos deletérios da economia internacional e da crise
econômico-financeira das grandes potências. Também será decisivo o
modo como entrará no novo mundo: com que produtos, com que tecnologia,
com qual projeto de sociedade. Mas também é razoável supor que boa
parte de seu sucesso futuro dependerá da capacidade que tiver de
praticar, com maior vigor, políticas de integração regional que se
ponham num patamar mais amplo do que o intercâmbio comercial, ou seja,
que aproximem de fato povos, regiões, sociedades e culturas e se
sintonizem com as particularidades dos diferentes países.
 
Trata-se de uma ênfase inteiramente respaldada pela Constituição e que
encontra a mais viva sustentação no núcleo da política externa, que
continua a seguir, fiel às suas melhores tradições, uma perspectiva
plural, que valoriza a paz, o multilateralismo, a abrangência e a
abertura para o mundo.
 
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Marco Aurélio Nogueira é professor de Teoria Política da Unesp.
 
 
Fonte: O Estado de S. Paulo, 24 set. 2011.

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